Olivier Clément

«A confiança terá a última palavra»

Escritor e teólogo, professor no Institut de théologie orthodoxe Saint-Serge de Paris, Olivier Clément sente-se particularmente vocacionado para facilitar o reencontro entre o Oriente e o Ocidente cristãos. Amigo da comunidade, ele escreveu um livro intitulado «Taizé: Um sentido para a vida» (Paulus Editora, 2004), do qual aqui publicamos algumas passagens.

Em Taizé, homens de origens confessionais, étnicas, culturais, linguísticas diversas e mesmo, às vezes, opostas, rezam e trabalham em conjunto: sim, é possível, Cristo destrói todo o muro de separação. Esta diversidade histórica e geográfica apaga-se perante a diversidade de dons. A comunidade é uma colmeia em actividade. Alguns criam beleza, pintando imagens, às vezes ícones, modelam admiráveis objectos de barro capazes de enobrecer a vida quotidiana. Outros traduzem e imprimem os textos mais importantes da tradição cristã. Estudam-se também as línguas para responder à vocação internacional de Taizé. Anúncio humilde mas profundamente vivido dessa humanidade reconciliada, transfigurada, em direcção à qual a história vai tacteando dolorosamente, uma história da qual o Espírito, que trabalha sempre, mina as opacidades mas ilumina as realizações, quer se trate de arte, de ciência ou de espiritualidade.

Os jovens de hoje estão cansados de discursos (mas também de zombarias), têm sede de autenticidade. É vão falar-lhes de comunhão se se não pode – «vem e vê» – mostrar-lhes um lugar onde a comunhão se elabora. Um lugar onde se é acolhido como se é, sem se ser julgado, em que não se vos pede um passaporte dogmático, sem contudo esconder que aí as pessoas estão reunidas em torno de Cristo e que um caminho – «eu sou o caminho», disse ele – aí começa para quem o desejar. (pág.14-15)

É a ligação entre uma experiência espiritual profunda e uma abertura criadora ao mundo que está no coração dos encontros animados em Taizé, articulando-se estes deste há muitos anos em volta do tema «vida interior e solidariedade humana». E é esse cristianismo que deve ser visado, pois quanto mais nos tornamos homens de oração, tanto mais nos tornamos homens de responsabilidade. A oração não liberta do empenhamento no mundo: torna ainda mais responsável. Nada é mais responsável do que a oração. Isto deve ser realmente compreendido e feiro compreender aos jovens. A oração não é uma diversão, não é uma espécie de droga para o domingo; ela introduz no mistério do Pai, no poder do Espírito Santo, em torno de um rosto que nos revela todos os rostos, e nos faz finalmente servidores de todos os rostos. (pág.52-53)

A confiança é uma palavra-chave em Taizé. Os encontros animados pela comunidade, na Europa e noutros continentes, fazem parte de uma «peregrinação de confiança através da terra». A palavra «confiança» é talvez uma das mais humildes, mais quotidianas e mais simples que há, mas ao mesmo tempo uma das mais essenciais. Em vez de falar de «amor», de agapê, ou mesmo de «comunhão», de koinonía, que são palavras avultadas, falar-se-á talvez de «confiança», pois na confiança essas realidades estão todas presentes. Na confiança há o mistério do amor, o mistério da comunhão e, finalmente, o mistério de Deus enquanto Trindade. (pág.77)

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