Dois irmãos na Argélia

No início do mês de Janeiro de 2006, dois irmãos deslocaram-se à Argélia. Foram ao encontro dos estudantes sub-sarianos que têm vindo a Taizé e à descoberta de uma pequena Igreja, com a qual os estudantes caminham durante a sua permanência neste país. Um irmão conta a viagem:

Desde há quase 20 anos, centenas de estudantes sub-sarianos, que estudam na Argélia, foram convidados a participar durante várias semanas nos encontros em Taizé no Verão. Através deles abre-se-nos uma porta para o continente africano. Há entre eles uma grande diversidade de nacionalidades: congoleses, costa-marfinenses, camaroneses e muitos outros.

A sua presença em Taizé incita-nos a procurar em conjunto como construir um futuro de paz, como assumir responsabilidades para transformar a sociedade, que lugar pode ter a fé nos nossos compromissos. Estas questões surgem frequentemente em conversas e é apaixonante falar com eles e ouvir os seus testemunhos. Foi para aprofundar estas questões que fomos ao seu encontro lá onde vivem.

Iniciámos a nossa viagem em Argel e deslocámo-nos depois ao oeste do país, tendo regressado a Argel para terminarmos a nossa estadia. Fomos marcados por encontros de uma grande simplicidade e pela alegria dos reencontros.

O que nos tocou na Argélia foi o sentido do acolhimento árabe. Frequentemente o visitante ouve dizer, «seja bem-vindo a nossa casa». Depois dos anos difíceis do terrorismo, a presença de estrangeiros simboliza um novo começo. Contudo, muitos destes jovens parecem desnorteados ao chegarem à Argélia. Longe de sua casa por vários anos, são numerosos os que, durante o curso, não têm meios para ir de férias ao seu país.

Face a outra cultura, sentem-se por vezes muito vulneráveis. E os que dentre eles são cristãos ressentem muitíssimo o facto de serem estrangeiros. Nesta sociedade islâmica, os cristãos e a própria Igreja permanecem muito discretos e quase não têm representação na sociedade, exceptuando os poucos edifícios religiosos que por ela puderam ser conservados depois da independência.

A pertença a outras confissões de fé que não a do Islão gera muitas interrogações. Para pôr termo às questões, os estudantes sub-sarianos cristãos, que vivem na cidade universitária, preferem por vezes esconder aos outros a sua crença religiosa. Esta situação é-lhes tanto mais difícil de viver quanto em muitas culturas africanas eles convivem sem hesitação com os seus irmãos e irmãs de outras religiões. A Igreja torna-se então, neste contexto, um espaço de liberdade essencial, no qual se podem encontrar para partilhar a sua fé com toda a franqueza e onde se podem apoiar mutuamente.

Simultaneamente, o facto de deverem justificar continuamente o facto de serem cristãos leva-os a uma reflexão sobre as fontes da sua própria fé. A Igreja procura acompanhá-los o melhor possível, para além das inumeráveis questões práticas que podem ser colocadas pelos estudantes e para as quais os responsáveis das comunidades não têm frequentemente soluções. O acento é posto sobre um acompanhamento espiritual que ajuda os estudantes a aprofundar a fé. Neste contexto, vir a Taizé é uma etapa que a Igreja lhes oferece, para poderem distanciar-se e compreender melhor o que estão a viver na Argélia.

Em nome da sua vocação na terra do Islão, a Igreja da Argélia procura também estar junto das pessoas que a rodeiam, com respeito e desprendimento. Querendo ser testemunhas de um Deus próximo de todos os seres humanos, os cristãos procuram com muita imaginação e audácia criar «plataformas de encontro», que lhes permitam entrar em contacto com pessoas muito diversas. Não com o objectivo de fazer conversões fáceis, mas antes para exprimir através da própria vida as realidades do Evangelho.

Deste modo surgiram, por sua iniciativa, bibliotecas, frequentadas sobretudo por jovens estudantes do país, ou ainda ateliers de trabalhos manuais, como o bordado ou a costura para jovens mulheres para as quais isso representa um meio de sair de casa por algumas horas. Poder-se-iam nomear outras actividades que são do domínio da ajuda a pessoas em dificuldade.

Os animadores permanentes das comunidades cristãs são pouco numerosos e sempre preocupados em poder continuar a sua presença na «casa do Islão», tão importante para dar ao mundo o sinal forte de que podemos viver juntos, mesmo quando aparentemente muitas coisas nos separam. É uma vida feita de pequenos passos em que os «resultados» assentam antes de mais na fidelidade do testemunho.

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