Os cursos profissionalizantes

Uma sede de futuro que faz trilhar caminhos desconhecidos

O João, um jovem informático português que está a fazer uns meses de voluntariado junto dos irmãos de Taizé em Alagoinhas, escreve sobre a sua experiência com as crianças de bairros pobres. Ele colabora nos cursos de formação profissional, que se desenvolveram à volta da «brincadeira» que os irmãos animam há vários anos.

Este ano, pela segunda vez, abriram os cursos profissionalizantes destinados aos adolescentes e jovens dos bairros vizinhos da Brincadeira. Sem ter sido feita publicidade, em apenas três dias, apareceram mais de 50 interessados, e no final de uma semana já passavam os 90. Os cursos propostos foram: Cabeleireira, Eletricista (tarde e noite), Informática básica (tarde e noite) e Informática avançada. São cursos gratuitos, que abrem acesso à formação dos jovens da periferia da cidade, que não têm possibilidades financeiras, e que vivem longe do centro, onde outras ofertas, pelos custos e pela distância, lhes ficam vedadas.

Os professores dos cursos assumem a tarefa, não só de educar, mas também de acolher cada um e cada uma tendo presente o risco social em que a grande maioria vive. O ambiente de crescente tráfico e consumo de drogas, e de criminalidade nos bairros, e a falta de estrutura familiar levantam a preocupação de como os manter afastados de uma realidade que não lhes oferece futuro, como lhes devolver a esperança. Por isso é necessário relativizar a eficiência da aprendizagem no curso, flexibilizar a disciplina e sobretudo acompanhar individualmente cada um, escutar, buscar caminhos para que mantenham a presença. Acompanhei todo o processo das inscrições e da colocação dos alunos nas turmas. Houve uma extrema preocupação para com os que se afastaram dos cursos na época passada, e de certo modo, se afastaram da Brincadeira. Durante semanas assisti a conversas de verdadeira reconciliação. Muitos voltaram e ainda frequentam os cursos, o que foi para mim um exemplo concreto do caminhar a segunda milha com quem já nos vez caminhar uma.

No final do ano os aprendizes serão já capazes de aplicar na prática os seus conhecimentos. As cabeleireiras já experimentam suas técnicas entre si: as irmãs penteam-se umas às outras, as mães cortam o cabelo aos próprios filhos, e muitas vezes os meninos da Brincadeira surgem de penteado novo. Uma das aprendizas contou-me, orgulhosa, que até já recebeu uma proposta de emprego! Também os aprendizes de Eletricista já vão fazendo pequenas reparações nos bairros. Na Nova República foi uma vez feita a «Festa da Luz», festa de inauguração da instalação elétrica feita pelos aprendizes numa das casas que não tinha eletricidade. O sentimento de utilidade cresce. Sentem-se valorizados e assim descobrem seu potencial de aprendizagem e responsabilidade. É muito interessante testemunhar o ambiente de solidariedade e cordialidade entre aprendizes. A aprendizagem não é centrada na competitividade nem na concorrência. Todos caminham lado a lado e na ajuda mútua.

E isso vê-se muito claramente na turma da tarde de Informática básica, que tenho acompanhado mais de perto. Durante a aula disponho-me a ajudar nas tarefas práticas. Mas na maioria das vezes são eles próprios que se ajudam entre si. A ideia da autosuficiência que as sociedades europeias alimentam, não se cultiva por aqui. A dureza da vida obriga à interdependência. E isso chega também aos cursos. Esta é uma turma interessada e assídua. Quando os professores chegam, já todos esperam a abertura da sala. Foi naquela sala que muitos ligaram pela primeira vez um computador. O fácil acesso a celulares tornou-os, paradoxalmente, mais familiarizados com tecnologias avançadas, como o «face» («facebook») ou o «zápi-zápi» («whatsapp») do que com o computador pessoal.

Com o tempo verifico, com um certo espanto, a persistência com que diariamente, de segunda a sexta-feira frequentam o curso. Com espanto, porque tive oportunidade de visitar os bairros onde moram, e ver as condições em que vivem. Pensava: a casa não é lugar de silêncio que propicie o estudo, como podem ser tão persistentes, alimentar interesse? A distância entre a pobreza de suas casas, tipicamente com poucas divisões, sempre partilhadas, e o universo de um curso de informática, era, para mim, abismal. Parecia haver em cada um uma sede de futuro que os fazia trilhar caminhos desconhecidos. E enfrentar medos e inseguranças também.

Nas aulas reparei que as dificuldades começavam logo com o português. Muitos mostraram não saber escrever corretamente – alguns muito próximo do analfabetismo. Um simples exercício de digitação de um texto era fonte de vergonha e certa humilhação. E se aquele paradoxo era tão grande e me desconcertava, ao mesmo tempo me abria os olhos para o lado lutador daqueles jovens, e como isso, por sua vez, me ensinava a relativizar os meus próprios medos e as minhas próprias inseguranças.

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