Valores africanos: solidariedade, compaixão, igualdade

Em 2000, a irmã Iris-Mary, que acabara de ser durante doze anos responsável geral das irmãzinhas de Jesus, passou várias semanas em Taizé. Durante um diálogo espontâneo, nalguns encontros ela transmitiu um pouco da sua experiência e da sua confiança em relação a África.

Nasci na África do Sul. Pertenço ao grupo a que se chamava os «colored» ou «mestiços», aqueles que nasceram de uma mistura de raças. Isso não quer dizer que o meu pai fosse africano e a minha mãe europeia. Na cidade do Cabo, donde sou, há casamentos inter-raciais desde há duzentos ou trezentos anos, e as pessoas têm origens muito diversas, não só da Europa e de África. Alguns também vêm da Índia, ou então descendem dos escravos da Malásia. A comunidade dos mestiços, que no Cabo é muito importante, tem uma cultura mista com raízes africanas, indianas e da Malásia.

Nesta sociedade multirracial, durante o apartheid, havia sempre a vontade de imitar tanto quanto possível o opressor, tornar-se como ele. Porque aos teus olhos é ele quem tem o poder. É verdade tu detesta-lo, detestas a sua língua. As pessoas não queriam aprender o afrikaans por causa disso. Mas de facto, tudo o que queres é ser como ele, ter o que ele tem. É preciso muita distância, muita fé em ti mesmo para ser feliz com o que és. Também porque o opressor despreza o que tu és. É por isso que és pobre. O problema com o racismo é que ele assenta sobre algo que não se pode mudar, é étnico. Se me dizem que sou má porque sou uma ladra, é algo que posso mudar. Se me dizem que sou má por causa da cor da minha pele, não posso fazer nada. Então, durante toda a minha vida vou pensar que tudo o que vem de mim e da cor da minha pele é mau. A menos que seja capaz de tomar a distância necessária para dizer a mim próprio que a cor da minha pele também é bela. Foi na Europa que tomei consciência da minha identidade.

Pessoas que resistem

Quando acontece uma catástrofe, os pobres são sempre os primeiros a sofrer. Seja uma guerra, a fome, ou um tremor de terra. É um facto que há muito sofrimento, e também muito sofrimento moral, porque o nível de vida é baixo. Mas no centro de tudo isso, também se encontra a grande riqueza das pessoas. Pessoas que resistem. A palavra resistência vem-me muitas vezes à ideia, porque estas pessoas atravessaram tantas dificuldades e, contudo, continuam, não desistem. Vejo a resistência das mulheres. Se torno a pensar na África do Sul, em todos esses homens que foram presos, vejo que foram as mulheres que ganharam a vida e enviaram os filhos para a escola. Elas retomaram o facho e ao mesmo tempo amparavam o marido na prisão. Ainda hoje, nos bairros pobres, o que quer que aconteça, as mulheres erguem-se e agem.

A vida continua e as pessoas avançam. No ano passado, fui a Goma, no Congo, onde se tinham refugiado numerosas pessoas do Ruanda, sobretudo Hutus. Quando cheguei, já tinham sido expulsos e muitos tinham sido assassinados. Uma das Irmãs levou-me a um sítio do acampamento. Só restavam toldos de plástico com o logotipo da ONU. E havia também flores que as mulheres tinham plantado. As mulheres tinham realmente plantado flores à volta do acampamento! Tinham também plantado legumes, depressa arrancados pelos soldados. Mas as flores lá continuavam. Para mim é o sinal da coragem das pessoas, mesmo no meio das mais terríveis situações. Conheço em especial uma família que passou por tudo isso. Voltaram para se tornar a instalar no Congo e de novo plantaram legumes para vender e ter com que comprar qualquer coisa para comer. Os soldados voltaram, levaram os legumes e tudo o que tinham. Então vieram pedir que lhes déssemos de novo sementes para tornarem a semear!

O ícone do seu povo

Penso que, fundamentalmente, as pessoas acreditam na vida. Sobretudo os mais pobres consideram que nada lhes é devido, por isso recomeçam sempre. Se pensamos que alguma coisa nos é devida, temos tendência a dizer: «Por que é que Deus me fez isto?», ou então: «A culpa é de uma tal pessoa.» Mas se tivemos de lutar toda a vida, então levantamo-nos e recomeçamos a lutar. Sobretudo as pessoas que têm filhos. Acreditam nos filhos e, portanto, avançam.

Em África, as pessoas são muito sãs. Os africanos, de uma maneira geral têm muita saúde, tanto física como moral. Até fisicamente, os africanos são muito fortes, à excepção, evidentemente, daqueles que foram marcados pela fome, a guerra ou a doença. Fisicamente os africanos são belos! E muito sãos de espírito. As tradições africanas têm origens muito sãs. Quando vemos Nelson Mandela reaparecer depois de vinte e sete anos de prisão, pode sair de cabeça erguida, como um ícone do seu povo, mestre da reconciliação. Não está quebrado. As pessoas têm uma grande saúde mental, isso faz parte da tradição e da cultura africanas. Talvez isso esteja a mudar, porque as cidades transformam os homens. As pessoas estavam habituadas a viver num sistema económico muito simples: uma ou duas vacas, um campo para cultivar, e trocava-se pelo que faltava. Mas tudo isso foi devastado pelas multinacionais que vieram pedir-lhes que cultivassem café ou que trabalhassem nas minas.

Vai demorar tempo até que se construa uma nova sociedade na África do Sul, mas o que se pode fazer já, é viver de maneira autêntica, acreditar de maneira autêntica. Não procurar poder em demasia, mas sim partilhar. A maioria da vezes, não é natural, e, contudo, muitas pessoas são capazes de o fazer. Isso faz parte dos valores africanos: a solidariedade, a compaixão e a igualdade.

Printed from: http://www.taize.fr/pt_article1700.html - 26 February 2020
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