Indignação, passividade ou compromisso

Ao longo de todo o ano, a reflexão prossegue em Taizé no caminho «Rumo a uma nova solidariedade», lançado em Berlim pelo irmão Alois. Nos últimos meses, um workshop convidou os jovens a reflectir sobre o tema: «Indignação, passividade ou compromisso – O lugar dos jovens na sociedade de hoje». Na mesma perspectiva, os jovens evocaram aqui compromissos concretos com os outros, na sociedade e nas suas comunidades cristãs.

Há muros não apenas entre povos e continentes, mas também muito perto de nós e até dentro do coração humano. Pensemos nos preconceitos entre povos diferentes. Pensemos nos imigrantes, tão perto e todavia frequentemente tão distantes.
irmão Alois, Carta 2012 – Rumo a uma nova solidariedade
Tom (Canadá)

Durante a minha estadia em Taizé, num encontro após a oração da noite, o irmão Alois falou sobre o destino dos imigrantes na Europa. Tendo trabalhado a maior parte do meu tempo nestes últimos dois anos num abrigo para pessoas que buscam asilo em Toronto, fiquei sensibilizado ao escutar o prior de Taizé evocar as dificuldades daqueles que tudo deixaram para procurar uma vida melhor noutro local.

Depressa compreendi que a mensagem desta noite é uma das que urge mais dar aos peregrinos reunidos na Igreja da Reconciliação. Parece ser norma nos países ocidentais vilipendiar os imigrantes, quando os responsáveis políticos de primeiro plano proferem comentários sobre a falibilidade do multiculturalismo ou denunciando a presença de demasiados estrangeiros.

A minha peregrinação a Taizé ofereceu-me entusiasmo renovado para procurar a solidariedade com os recém-chegados ao meu país. Rezo para que os jovens que vêm a Taizé tenham cada vez mais o desejo de encontrar o outro e a intenção de viver na tolerância e compaixão.


Procuremos estar atentos aos países mais frágeis, aos que não encontram trabalho…
Jermer (Filipinas)

O meu país passa por muitas injustiças sociais, que eu próprio experienciei no trabalho que desempenho neste momento. Na minha comunidade, trabalhamos com vítimas de injustiça, particularmente entre os mais marginalizados. Muitos deles necessitam de ajuda para alojamento ou educação. Vindo de uma família financeiramente favorecida, busco, no meu voluntariado, servir os meus irmãos e irmãs ajudando, por exemplo, a construir a sua casa. Animamos igualmente sessões de tutoria para dar aos jovens conselhos úteis para os seus estudos. No Evangelho, leio que, por causa da minha fé, sou chamado a levar a Boa Nova aos pobres (Lucas 4, 18). A educação não pertence apenas aos que possuem capacidades monetárias. É, sim, um direito de todos: é esta a convicção que desejo partilhar, um dia, com os meus filhos.


A nossa atenção aos mais pobres pode expressar-se num compromisso social.
Benjamin (Áustria)

Há alguns anos, deixei a Áustria e fui para a Roménia a fim de ajudar as crianças de rua. A vida do nosso centro social não conhece o tédio. Ocupamo-nos mariotariamente com os jovens – em geral, é bastante ruidoso! O dia começa com uma pequena oração na nossa capela. É muito tocante presenciar o reconhecimento daqueles que têm quase nada. A prece de intercessão estende-se por algum tempo, cada um deseja acrescentar a sua intenção. Angelica inicia sempre a sua oração com as palavras : «Deus bem-amado, obrigado por me teres despertado para a luz»…

Os nossos educadores trabalham em conjunto com voluntários vindos da Europa do Ocidente, mas, também, com as crianças de rua que se tornaram assistentes. Posso observar tudo o que estes jovens, e também os voluntários, recebem uns dos outros pelo seu serviço. Partem transformados : mais experientes, sabendo o que desejam da vida e capazes de compreender problemas com que ainda não tinham deparado.


É, acima de tudo, uma atitude de abertura a todos.
Armen (Arménia)

Na sociedade dos anos 80, sob o regime soviético, as pessoas portadoras de deficiência e respectivas famílias encontravam-se isoladas e excluídas. Frequentemente, os pais estavam sozinhos e impotentes perante este sofrimento. Era difícil encontrar alguém que pudesse ficar do seu lado e partilhar as suas dificuldades. Hoje, a situação modificou-se, ainda que muito reste por fazer para integrar as pessoas com deficiência e as suas famílias na sociedade. Trabalho como voluntário com centenas destas famílias e constato que o compromisso dos benévolos surge do local mais profundo do seu coração. Recebo-o como um grande dom, o de poder trabalhar com crianças com deficiência e cuidar delas.

Qualquer compromisso requer um sacrifício, tempo, energia e saúde disponíveis para as pessoas que precisam de ajuda. Mas este sacrifício é recompensado pelo sentimento incomum de ser útil a alguém que tem verdadeira necessidade da minha ajuda. Na maioria das vezes, a gratidão de uma criança é visível no seu sorriso: recebo-o como um grande presente. A sensação de ter tornado mais luminoso o dia de uma destas crianças é uma das maiores alegrias. A alegria de perceber que as minhas capacidades, generosamente oferecidas por Deus, puderam ajudar quem, de certa forma, encontra as suas capacidades reduzidas.


Perante a pobreza e injustiças, alguns deixam-se dominar pela revolta ou são mesmo tentados pela violência cega. A violência nunca poderá ser uma forma de mudar as sociedades.
Élisa (República Dominicana)

Confrontada com as injustiças na sociedade, não consigo evitar sentir uma indignação, uma dor, uma espécie de impotência dada pela ideia de que o que faço não vale a pena. Ao mesmo tempo, sinto que uma coragem me impulsiona a agir, a não permanecer imóvel, a não ficar em silêncio, a não permanecer mais na simples observação das situações que me rodeiam.

A violência jamais fez parte deste impulso do meu coração. A resposta do meu coração foi sempre a de agir por amor. Talvez seja tentador deixar-se dominar pelo primeiro impulso de violência ou fechar os olhos perante tantas injustiças, mas Deus chama-nos sempre a amar. Nesta perspectiva, o mais belo dom que vem de Deus chama-se alegria: sempre disponível para os que necessitam, esta alegria vem de Deus e dela retiro forças para, todos os dias, começar a agir por amor.


Escutemos os jovens que exprimem a sua indignação, para compreender as razões essenciais.
Pito (Porto Rico)

A minha experiência foi fortemente marcada pelo direito que todos têm à educação. O governo tentou limitar o acesso às universidades públicas com a criação de normas e o aumento das taxas de inscrição. Confrontado com esta decisão injusta, procurei, no meu trabalho com os jovens, transmitir uma mensagem de verdade, de amor, de justiça e de liberdade : estes valores do Reino de Deus foram instrumentos na expressão dos nossos sentimentos, sejam eles não conformistas. Na minha responsabilidade laboral, participei activamente em manifestações pela igualdade e oportunidades para todos os que aspiram a uma educação decente. Juntamente com a pastoral juvenil, preparei e organizei orações e encontros para estarmos em união e solidários com a comunidade académica. Creio que cada um tem o dever e a responsabilidade de uma acção não violenta por uma sociedade mais justa e mais acolhedora.


Os jovens espanhóis de Madrid comprometidos com o movimento dos «indignados» escreveram-me : «Não sabemos o que pode ocorrer se a situação não encontra melhorias. Há muitas pessoas no desemprego, que perdem as suas habitações e os seus direitos fundamentais [...]» (nota 6)
Marga (Espanha)

Estas últimas semanas foram muito interessantes devido aos acontecimentos que assinalaram o aniversário do movimento 15 de Maio. Em Madrid, os «indignados» do ano anterior regressaram para animar conferências, workshops e grupos de trabalho. Participei num encontro sobre um projecto cooperativo que busca encontrar um novo modo de vida mais simples, a fim de produzir apenas aquilo de que temos necessidade e viver de uma maneira simples e sã com produtos biológicos. Os grupos de desempregados procuraram encontrar uma forma de partilha entre si e os seus vizinhos, buscando soluções a curto e longo prazo para os trabalhos no quadro das redes cooperativas.


O impulso rumo a uma nova solidariedade alimenta-se de convicções enraizadas : a necessidade da partilha é uma delas. E um imperativo que pode unir os crentes de diferentes religiões, bem como os crentes e não crentes.
Simon (Alemanha)

Durante o tempo de preparação do encontro europeu em Berlim, vivi com uma família de Neukölln, um bairro de Berlim onde se encontram muitos imigrantes. No início, senti-me muito mais inquieto, tento assimilado bem os aspectos negativos deste bairro.

Depois, durante a minha estadia pude descobrir que estes imigrantes, muitas vezes encarados como fonte de problemas, eram aqueles que estavam interessados na preparação do encontro. São também eles que me saúdam da maneira mais calorosa. Falei frequentemente do encontro com alguns deles; convidei-os a participar, se assim o desejassem. Apreciaram a respeitaram a ideia de que este encontro reuniria milhares de jovens de toda a Europa para, durante alguns dias, rezarem e viverem em conjunto, na confiança, em reconciliação e em paz. Não raras vezes, ficaram surpresos ao escutar que um alemão os convidava para um acontecimento de índole cristã – era isto que não esperavam.

Nesse mesmo bairro, uma associação muçulmana colocou à disposição o seu salão de encontros para alojar jovens participantes que não encontrassem outro lugar. Este foi, para mim, um verdadeiro sinal de reconciliação, rumo a uma nova solidariedade entre os humanos. Se desejarmos verdadeiramente continuar esta peregrinação com vista a uma nova solidariedade, não podemos parar de dialogar respeitosamente com os imigrantes. Da mesma forma, devemos fazer tudo para ajudar a uma cada vez maior integração na sociedade, a fim de que encontrem o seu lugar.


Para despoletar uma solidariedade, caminhando ao encontro do outro, por vezes com as mãos vazias, escutemos e tentemos compreender aquele ou aquela que não pensa como nós… e já uma situação bloqueada pode transformar-se.
Francesco (Itália)

Durante uma viagem à América Latina, enquanto voluntário de Taizé, visitei um bairro de uma grande cidade onde habitavam as famílias mais pobres. Vivem em casas muito reduzidas e muito pobres, em que uma divisão chega a ser partilhada por oito pessoas. Sobrevivem com a produção de tijolos: todos os dias, produzem tijolos, curam-os e, depois, vendem-nos às empresas. É o seu único modo de ter rendimento… ou, sobretudo, de sobrevivência. Por faltar o dinheiro, as crianças caminham sem sapatos. No que me diz respeito, mostraram-se sempre muito acolhedores. Visitei algumas famílias com um voluntário que trabalha no bairro e que conhece cada uma destas casas. Ao longo de toda a tarde, brincámos com as crianças, que estavam alegres e felizes: um sinal de esperança numa situação difícil.

Se deseja reagir ou dar a sua própria contribuição à procura lançada pela Carta de 2012 – «Rumo a uma nova Solidariedade». Pode endereçar a sua mensagem ao endereço seguinte: echoes taize.fr.

Printed from: http://www.taize.fr/pt_article14098.html - 19 August 2019
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