Por uma Terra de Irmãos

Encontro em Santiago do Chile

Terça-feira, 7 de Dezembro

Depois de um longo silêncio, eis-nos de novo com os nossos relatos de Santiago! Os últimos preparativos não nos deixaram sequer respirar. A longa e contínua chegada de peregrinos dos quatro pontos cardeais não nos deram descanso. Os voluntários chegaram e tudo está pronto, ou quase, para o grande acolhimento de amanhã.

Hoje, a grande surpresa foi a chegada do grupo mais ao sul do encontro: dez jovens de Punta Arenas, lá onde o continente americano mergulha no oceano antárctico.

Pela primeira vez, pudemos rezar na grande tenda onde teremos todas as orações do encontro.

Agora, é quase meia-noite e os peregrinos continuam a chegar: batem à porta 15 jovens de Lima… e não podemos fazê-los esperar.

Quarta-feira, 8 de Dezembro

E finalmente chegaram todos! Um fluxo constante e cheio de diversidade, marcado pela alegria e pela boa disposição de todos, apesar das longas viagens e de alguns problemas nas fronteiras.

Depois de uma hora de explicações diversas, cada peregrino, com o mapa na mão, partiu para a sua nova família, para a sua casa de acolhimento, como gostam de dizer. Faces alegres, faces cansadas, caras pensativas… o que me espera, quem me vai acolher depois de uma hora de metro e de autocarro?

Todas as dúvidas, as deles e as dos outros, estavam dissipadas à noite, durante a primeira grande oração: toda a gente tinha encontrado não apenas a sua família mas também o caminho de regresso ao parco!

Uma tenda gigante (sim gigante!) acolheu calorosamente os últimos a chegar, que entraram rapidamente na oração. O sol poente e o vento morno vindo do Pacífico juntaram as suas vozes às das 8 mil pessoas que estavam presentes.

Ao longe, as vozes de outros jovens e das famílias que se passeavam neste grande parque público ajudaram-nos ainda mais a compreender como podia ser importante e significativo rezar no coração de uma grande cidade, sem pretensão e sem excluir ninguém.

No fim da oração, o irmão Alois, depois de ter recordado o duro ano vivido pelo povo chileno, falou da centralidade da alegria nas nossas vidas:

«Estamos juntos para descer às fontes da fé. Gostaríamos de procurar na confiança em Deus um estímulo para avançar.
 
Bem antes de Cristo, já no Antigo Testamento, um crente lançava um apelo que se dirige também a nós hoje: «a alegria do coração, eis a tua vida… Por isso, deixa a tristeza»!
 
Na nossa existência, atravessamos provações e sofrimentos, por vezes durante longos períodos. Contudo, gostaríamos de procurar sempre reencontrar a alegria de viver.
 
O Espírito Santo deposita a alegria de Cristo ressuscitado nas profundezas do nosso ser. Ela não está aí apenas quando tudo é fácil. Quando somos postos perante uma tarefa exigente, o esforço pode reanimar a alegria.
 
E, mesmo nas provações, alguns ousam referir-se a esta alegria. Ela pode permanecer escondida como as brasas sob as cinzas. Sem contudo se extinguir. No louvor, deixamo-la subir em nós, e de repente aquele instante ilumina-se».

Esta alegria continuará amanhã com reflexões nas paróquias e com os workshops da tarde. Santiago está em festa, uma festa silenciosa que está a ser preparada no coração de cada peregrino.

Quinta-feira, 9 de Dezembro

A alegria que tinha sido ontem prometida tornou-se realidade nas paróquias. Os voluntários que durante quatro meses prepararam as paróquias para receberem os peregrinos não encontravam palavras suficientes para contarem a alegria das famílias e dos jovens de Santiago quando viram que os peregrinos tinham realmente chegado e que podiam rezar com eles.

Ao meio-dia, o calor tórrido não amedrontou os jovens; chegaram à oração com uma pontualidade surpreendente. A distribuição da refeição merece boa nota: numa meia-hora, toda a gente tinha um saco de plástico na mão, com a refeição pronta a ser comida.

Na América Latina, os bons hábitos não se perdem: a facilidade de fazerem novos amigos permanece intacta. Para comerem, os jovens dispersaram-se por todo o parque e formaram espontaneamente pequenos grupos de dez pessoas: dois Bolivianos, quatro Chilenos, três Peruanos, dois Argentinos, um Dominicano… eis uma ementa muito diversificada e uma receita muito simples!

Os workshops da tarde foram muito frequentados, como aconteceu há três anos no encontro de Cochabamba. Temas diversos reuniram os peregrinos em diferentes locais da cidade: «dança religiosa: a oração tripla», danças e expressões culturais do Chile, sob a responsabilidade do bispo de Iquique; «Trepay-antù: na aurora, nos te procuramos», encontro com o povo mapucha, um dos povos autóctones do Chile; «a esperança e a crise humanitária no Haiti», com jovens vindos deste país; «Feliz o que encontra refúgio em ti», como caminhar na direcção da segurança e da confiança no Senhor e nos irmãos (Salmo 84), com o Padre Fidel Oñoro; «Os migrantes, uma ocasião a não perder: estabelecer relações justas e enriquecedoras». Eis os títulos de alguns dos vinte workshops propostos.

Durante a oração da noite, o irmão Alois convidou os participantes a reflectirem sobre as consequências da alegria cristã; longe de ser uma fuga do mundo, ela chama-nos a assumir responsabilidades pelos nossos irmãos:

«Ontem à noite, disse-vos que a opção pela alegria era inseparável da opção pelo homem. Nunca a opção pela alegria é uma evasão para longe dos problemas da vida. Pelo contrário, ela permite olhar a realidade de frente, incluindo o sofrimento e as injustiças. Ela enche-nos de uma compaixão sem limites …
 
Sermos testemunhas de comunhão supõe a coragem de irmos por vezes contra a corrente. O Espírito Santo dará a cada um e a cada uma de vós a imaginação necessária para encontrar os modos de se tornarem ainda mais próximos dos que sofrem, de os escutarem e de se deixarem tocar pelas situações de desespero …
 
Por muito necessária que seja a ajuda material em certas situações de urgência, ela não é suficiente. O que importa é fazer justiça aos que nada têm. O combate contra a pobreza é um combate pela justiça. A justiça no interior de cada país ; e a justiça nas relações internacionais, não o assistencialismo».

No fim da oração, como ontem, formou-se uma longa fila para ir rezar à volta da cruz. Isso mostrava bem como a alegria e a justiça não são palavras no ar, boas ideias ou atitudes louváveis, mas que em Jesus elas se revelam como realidades vitais para cada ser humano e que podemos aprofundá-las ainda mais.

Sexta-feira, 10 de Dezembro

Um espírito de família, eis talvez a melhor expressão para sintetizar o dia de hoje. É como se toda a gente já se conhecesse há muitos anos.

Fotografias, brincadeiras, encontros, troca de ideias e de experiências, promessas; tudo faz pensar que os laços que se estão a tecer durante estes dias vão durar. Há também muitos reencontros, porque os jovens que tinham participado no último encontro na Bolívia encontraram-se também aqui em Santiago.

A necessidade de se voltarem a encontrar para ver o que significa ser «latino-americano», o desejo de reconstruir uma identidade esquecida depois de tantos anos em que se olhou mais «para cima» ou «para o outro lado do Atlântico» parecem ganhar em profundidade. Nada de discursos, de grandes debates, de posicionamentos contra o que quer que seja: a oração e a partilha da palavra coloca-nos frente a frente tal como somos e chamam-nos a reconsiderar os nossos laços e opções.

Uma outra palavra que está no ar é comunhão. Como nos podemos reconciliar com o que nós somos e com o que não somos sem romper com quem quer se seja? Como mudar as coisas por dentro? Não será essa uma definição de comunhão?

Durante a oração da noite, o irmão Alois recordou-nos que a Igreja é a primeira servidora da comunhão. Ao mesmo tempo, convidou-nos a tirarmos as consequências disso: a comunhão sem perdão pode ser sem conteúdo.

«Acreditar no perdão de Deus não significa esquecer a falta. A mensagem do perdão não pode nunca ser utilizada para aceitar injustiças. Pelo contrário, acreditar no perdão torna-nos mais livres para discernir as nossas próprias faltas, bem como as faltas e as injustiças à nossa volta e no mundo. Então, cabe-nos a nós reparar tudo o que pode ser reparado.
 
Neste caminho difícil, encontramos um apoio vital: na comunhão da Igreja, o perdão de Deus pode ser dado outra vez…
 
Cristo distingue entre a pessoa e a falta cometida. Até ao seu último sopro na cruz, ele recusou-se a condenar alguém. E a falta, ao invés de a minimizar, tomou-a sobre si próprio.
 
Há situações em que não conseguimos perdoar. A ferida é demasiado grande. Então, lembremo-nos que o perdão de Deus nunca falta. Quanto a nós, por vezes é apenas por etapas que aí chegamos. O desejo de perdoar é já um primeiro passo, mesmo quando o desejo permanece mergulhado pela amargura…
 
Como qualquer pessoa, as sociedades humanas não podem viver sem perdão. Na América Latina e em muitos outros países do mundo as feridas da história são profundas. Ousemos por isso pôr termo ao que pode acabar já hoje. Renunciemos a transmitir à próxima geração as amarguras do passado. Assim, o futuro de paz, preparado no coração de Deus, poderá desabrochar plenamente».

A oração da noite foi marcada pela presença de numerosas personalidades de todas as Igrejas e instituições do país. Ao lado do cardeal Errázuriz, arcebispo de Santiago, e de outros bispos do país, vieram também rezar os responsáveis de diversas Igrejas de Santiago, bem como presidentes de câmara e ministros.

Amanhã será ainda um dia de festa e, cremos, de verdadeira festa: aquela onde a alegria se alimenta nas fontes do perdão.

Sábado, 11 de Dezembro

Quando parece que os jovens se habituaram ao ritmo da oração, aos cânticos em mapundungún (língua mapucha), ao silêncio, às refeições frugais e aos incalculáveis (já calculáveis!) atrasos, o encontro aproxima-se do fim.

Contudo, este último dia completo de encontro reservou-nos uma surpresa suplementar. Como quando de cada etapa da peregrinação de confiança, pensou-se num momento para a partilha entre os jovens vindos do mesmo país, para começarem a procurar desde agora modos de continuarem esta peregrinação quando regressarem a casa.

Além do clima de alegria e de reflexão profunda que foi o denominador comum de cada um destes encontros, a delegação boliviana, com os seus 400 jovens, decidiu retribuir aos jovens chilenos o bonito gesto de que eles próprios tinham beneficiado há três anos quando do encontro de Cochabamba: os Bolivianos foram ao encontro chileno, na grande tenda da oração, e rodearam com um abraço gigante os mais de dois mil ali Chilenos reunidos naquele momento. «Ubi caritas et amor Deus ibi est» foi a resposta espontânea desta massa de jovens que sabem que quanto maior esforço exigirem os laços de paz e de fraternidade, mais verdadeiros e duráveis se tornam.

Um poema lido por uma criança boliviana de Potosi concluiu este momento, dizendo o que foi o encontro: um encontro consigo mesmo e com Deus que nos permite ir ter com os irmãos tal como eles são, na simplicidade.

Na oração da noite, o cardeal Errázuriz e o irmão Alois encorajaram os jovens a que, de regresso a suas casas, plantassem raízes profundas a partir das experiências vividas nestes dias. O irmão Alois:

«A fé apresenta-se hoje, antes de mais, como um risco, o risco da confiança. Para assumir esse risco, precisamos de todas as nossas capacidades humanas, as do coração e as da razão.
 
Mesmo se somos crentes, nem sempre procuramos suficientemente aprofundar a nossa fé. Acontece que se abre uma distância entre os nossos conhecimentos no domínio da fé e os que foram adquiridos noutros domínios. Uma fé que permanece apegada a expressões aprendidas durante a infância enfrenta com dificuldade os questionamentos da idade adulta.
 
A procura de uma comunhão pessoal com Deus é então ainda mais importante. Como podemos aprofundá-la antes de mais? Como podemos alimentar aí a nossa esperança?
 
Mesmo se compreendemos pouca coisa sobre o Evangelho, podemos procurar saber mais em primeiro lugar a partir de uma palavra que tentemos pôr em prática. Todos nós podemos perguntar: qual é para mim a palavra do Evangelho que me toca e que eu gostaria de pôr em prática hoje mesmo e nos próximos tempos?»

Amanhã, não nos espera qualquer cerimónia espectacular de encerramento, mas apenas a celebração da festa de Cristo ressuscitado no meio de nós, prosseguida nas comunidades de acolhimento.

Domingo, 12 de Dezembro

Vive-se um clima raro: uma alegria serena invadiu cada uma das paróquias de acolhimento. Durante as celebrações de domingo em que participaram juntos os peregrinos as famílias que os recebiam multiplicaram-se os sinais e as palavras para tentar apresentar a Deus o que tinha sido vivido.

Nem euforia nem lágrimas exageradas nem promessas irrealizáveis... mas apenas duas certezas: a de que Deus nos espera na nossa casa para prosseguirmos esta peregrinação, para continuarmos a semear a confiança, e a de um infinito reconhecimento.

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